MEMÓRIA AFETIVA
para Lúcia de Aquário
Nós, que começamos ninfetas colonizadas.
Com a paixão que precede a reflexão nos juntamos
em busca dos seres das lendas, pois que tínhamos a crença
e a carne para o adverso.
Nós que tínhamos o mesmo ciclo de 28 dias
o mesmo pique que enfatiza as virgens
éramos as perdedoras que adquiriam existencialismo.
Nós que debulhamos rosários
choramos martinis
consertamos antidistônicos
afrouxamos a sexualidade
ovulamos, pecamos.
Nós, que experimentamos.
O primeiro luís
e o vestido branco para sempre
no baú tão mútuo de recordações e antíteses
– explicamos que éramos de um signo do ar -
por isso as coincidências.
E comprovamos que não existiam andrômedas
por isso os contrários.
E os cometas, as falsetas.
Jogamos I-Ching, decalcamos borboletas raras em nossos rostos fabricamos caleidoscópios de mentira
fomos parceiras dos órfãos das chocadeiras.
Nos socializamos como excepcionais e sobreveio a arte:
onde antes uma parede nua teus primeiros desenhos certeiros
e meus versos decididamente partidários.
E então veio a epopéia
Marte, Saturno, Plutão
com sua algazarra de guerra surda e muda
sua pose de senhor dos cachorros
seus ditames, certames, reclames, toques de recolher.
E os amores fugiram e deixaram recados
e ninguém molhou as plantas que cresciam com raiva.
Fugiram todos da lacrimogenia
e ficou de ser solitário cada coração no peito
aguardando amor de salvação,
a barriga repleta de filhos alheios
e queridos e temidos e abortados na construção.
Era preciso neutralizar nossos sonhos
(uma questão de método, soubemos depois)
decorar todos os nomes da inevitável terapia
engolir as panacéias
antes que nos enjaulassem como dorotéias
por sonhos mal redigidos.
Que saída!
Entre a vesânia e o pudor
entre a licença e o voto vencido
os astros contra
Deus contra
entre a cruz e a cruz
entre um amor mal dormido e um motim popular
entre o ácido e o doce
pela moda feminina de cor azul
ou o porte de cavalo de corrida?
Demos um tempo antes do próximo martini
– um último amor que fugiu pela janela
um caso que não vingou.
Mas um equilíbrio muito particular se deu
entre mercúrio-cromo e ferida.
...
Hoje, enquanto você nos desenha
– figuras de estilo, marcadas em crayon e nanquim
múltiplas mulheres de engenharia sutil
– escrevo em linhas tortas nossas humanidades
que a espoliação é o trivial simples que já doeu
e que por vivência, ou intimidade seguimos
com a bagagem toda
rimando tudo, colorindo tudo, repetindo tudo
como já estava previsto.
Que aí no Leme o mar é teu
que eu te dou e escrevo e assino embaixo.
Que a Esplanada é minha, pasto dos meus carneiros.
Que reviver se escreve de trás para diante.
Que as lágrimas são uma constante das variáveis.
Que tanto faz definir quem é poeta, quem é pintor
queremos é apanhar vento e modificar o vento.
© 1980-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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