COMO NA VISÃO DO BÊBADO

E UM GALO CANTAVA

.

 

 

Oceano Atlântico, mentira! Em Ipanema vestida não crescem lírios,

no delírio drogado não há Carmem Miranda.

 

Me lembro de você quando eu era gangorra e freqüentávamos sempre

por uma única vez e nunca mais o jardim botânico e me lembro

das manadas bem trajadas que protegiam (protegem?) a grande mãe

dos vômitos da cidade e dos cães que rosnavam (rosnam?) autoridade

à nossa futura prole porque nos amávamos e depois durante a nossa via crucis do leme ao leblon contávamos as gaiolas douradas e brincávamos então de adivinhar com que sonham eles mas  eles não sonhavam compactuavam sonhos de marinas me lembro bem.

 

Há nos ares mais bares e despedidas ao planeta embriagado,

o companheiro oscila, entre o céu e o processo há muito mais

do que vãs ideologias.

 

E mesmo assim ousávamos caminhar desarmados e assistir ao balé erótico das lagostas na cinelândia e olhar os morros fechando o círculo da miséria até choramos uma vez imaginando o farol apagado e a cidade descolorida

e projetamos um céu de cor plúmbea para exportar nossa paisagem venderíamos lamentos e enterraríamos os mortos no mar ficamos muito maus de repente não nos desconhecemos porque estávamos solidários.

 

A madrugada é sem tabacaria, sem caporal douradinho,

em frente ao edifício Marquês de Herval, na Avenida Rio Branco.

 

mas havia muitos shows de artistas desconhecidos os narizes de ferro

se omitiam à maresia sugerimos fosse feita uma grande orgia em areias permissivas mas nos amamos timidamente na arrebentação e as gotículas eram carrossel de cores girando girando e que davam voltas no ar tomando formas de bolas cilindros trapézios e tudo foi deflorado

na depuração do mar.

 

Santa Tereza, madres e padres e motorneiros din-don,

no Curvelo das balas toffee origina-se o tresloucado gesto,

tão transcendente como os leões de porcelana

na entrada da Chácara do Céu vigiando os paralelepípedos.

 

anoitecemos sem chances de suicídio num fiorentina abarrotado e as caras eram de revista em branco e preto e nos ofereceram o chiclete do abandono a preço brasileiro que não era o bronx nem picadilly nem circo nenhum ainda nos amamos e haverá tempo para pegar o bonde?

a metrópole está em intensa polução noturna grupal tribal mas hoje

tudo é memória e continuidade, me lembro bem e dos teus olhos verdejantes que eram de luz.

 

É janeiro, o grande Rio transborda em seca e calor

aguardando o carnaval para os deuses e as idéias nas vitrines entortam as cabeças. As pessoas possuem um maravilhoso

sorriso de acrílico.

 

me despedi no calçadão e ri porque copacabana não me enganou

voltei bronzeada mas sem fantasia e quanto mais nua eu ficava

mais eu também te esquecia – yellow river, your christ is green now

– e da luz, luz, luz areia colada no corpo corrida pelo trânsito louco

de tudo um pouco desse amor rabiscado em cartões postais que vão enchendo as fibras do computador caixinha de lembranças do

peito de artista vou me esquecendo em romaria – que todas as cidades

e todos os amores repetiriam essa mesma canção de ninar.

 

Próxima parada Bairro Boêmio?

 

 

     

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