FENÔMENO
Nascida
e tangida à ira
num ano da década dos sessenta.
Crescida
e tornada cínica
num tempo de marcha cívica.
em frente à lanchonete muita moda na roda
que geração mais bonita
um olé de hambúrgueres aos mais valentes
os james dean ressuscitados pelas motos
que descrevem as direções convergentes
as cabeças são todas frutas saborosas embutidas nos sorvetes
ice-creams antárticos que povoam os sonhos ácidos
pode-se ver o sangue açucarado nas têmporas agitadas
em rostos nacarados os olhares
apaixonados pelas telas panorâmicas
que o visual é superestimado pelos rebanhos multivinculados
o que os olhos não vêem o coração não sente
que o amor é relíquia de avós falecidas
que a mocinha aprisionou num broche
e a inteligência arrebita o nariz nas olimpíadas
yesterday something lhes foi dita
talvez pra desmontarem o cavalo de tróia
e eu não entender nada
porque a casta fechou-se
e o segredo isola o vírus da consciência.
Em frente à lanchonete de neón gritante eu sou como eles
eu sou eles, meus filhos, netos
não pode ser apenas uma questão de ser, por Sartre!
eu preciso de um código, um sinal
– pode ser com o dedão do pé
– eu preciso entender e não lhes fazer mal
preciso da linguagem mágica, da poesia-beleza
do amor pós-guerra
das mil e uma noites dos quinze anos de idade
eu preciso aprender as notícias e a desbotar os jeans.
eu sou como eles e tento:
gosto de waffles com geléia geral
gosto de saber do que vocês gostam
e também acho os eixos da vida
macabramente imponentes.
© 1980-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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