MOVIMENTO

 

Te quero

acima das coisas, dos tempos.

Quero em ti o fogo que me queima as asas

a boca a me tecer enganos

o equívoco olhar.

Te quero

e me perco no corpo teu de vagar cigano,

onde me engano

e me entrego

e me engano

e te quero

e tudo cresce

e tudo avança:

não há como evitar a lança

o doce sangrar.

Me engano e me alimento.

A fruta. A flor. A pedra.

Fogo-fátuo

a pele a te querer

antigo e como antigamente

eu confinada num abraço forte:

te quero inteiro como se fosse a morte.

Dentro das noites e no nascer das manhãs

te quero motivo

vivo

me ouvindo dizer

patética como sempre

te quero mais:

- mais alto

- mais forte

- mais fundo.

Te quero

e quero estar a antecipar

a cor

o gesto

o grande mar de depois.

Te quero

pasto e caçador

e a carne a não pedir explicações

apenas movimento.

 

Apenas movimento?

 

                 

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