MOVIMENTO
Te quero
acima das coisas, dos tempos.
Quero em ti o fogo que me queima as asas
a boca a me tecer enganos
o equívoco olhar.
Te quero
e me perco no corpo teu de vagar cigano,
onde me engano
e me entrego
e me engano
e te quero
e tudo cresce
e tudo avança:
não há como evitar a lança
o doce sangrar.
Me engano e me alimento.
A fruta. A flor. A pedra.
Fogo-fátuo
a pele a te querer
antigo e como antigamente
eu confinada num abraço forte:
te quero inteiro como se fosse a morte.
Dentro das noites e no nascer das manhãs
te quero motivo
vivo
me ouvindo dizer
patética como sempre
te quero mais:
- mais alto
- mais forte
- mais fundo.
Te quero
e quero estar a antecipar
a cor
o gesto
o grande mar de depois.
Te quero
pasto e caçador
e a carne a não pedir explicações
apenas movimento.
Apenas movimento?
© 1978-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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