A FANTASIA DA VIABILIDADE

 

Já pensou eu morrer logo agora

atropelada por um corcel 77 branco-gelo

dirigido por um debilóide urbano contumaz?

 

Minha cabeça há de rolar no asfalto

miolos voarão em todas as direções

causando vômitos nos transeuntes

braços e pernas perdidos achados pela criminalística

cabelos enrolados nos pára-choques

o coração sendo lambido por um cachorro faminto

e meu pé surrealisticamente engatado nas grades de um bueiro.

 

E depois a burocracia dos papéis,

seguro contra terceiros

laudo de exame cadavérico

perícia e recomposição para reconhecimento do corpo

identificação social para categorizar o enterro

o serviço de limpeza urbana

convocado às pressas para lavar a via pública

o outdoor anunciando o Corcel 78 cor-de-céu.

 

Que morte imoral

indigna de um poeta distraído      

e sem sindicato.

 

           

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