A FANTASIA DA VIABILIDADE
Já pensou eu morrer logo agora
atropelada por um corcel 77 branco-gelo
dirigido por um debilóide urbano contumaz?
Minha cabeça há de rolar no asfalto
miolos voarão em todas as direções
causando vômitos nos transeuntes
braços e pernas perdidos achados pela criminalística
cabelos enrolados nos pára-choques
o coração sendo lambido por um cachorro faminto
e meu pé surrealisticamente engatado nas grades de um bueiro.
E depois a burocracia dos papéis,
seguro contra terceiros
laudo de exame cadavérico
perícia e recomposição para reconhecimento do corpo
identificação social para categorizar o enterro
o serviço de limpeza urbana
convocado às pressas para lavar a via pública
o outdoor anunciando o Corcel 78 cor-de-céu.
Que morte imoral
indigna de um poeta distraído
e sem sindicato.
© 1978-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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