CARPE DIEM (III)

 

 

 

 

Os ruídos lá fora avisam das coisas acontecendo.

O panorama da normalidade mostra proprietários

aquecendo os veículos da comunicação

criancinhas que as mamães oferecem aos raios ultravioletas

o carteiro adiantado premiando com futuras insônias

aqueles que ousam ter  residência fixa

a porca miséria

o jornaleiro que faz da manchete do dia

o samba-enredo vencedor do próximo carnaval

as mansardas de mau-gosto

dos sócio-políticos homens de mau cheiro

o sêmen da madrugada escorrendo pelas tabelas falíveis

o som industrial

liquidificadores, batedeiras, enceradeiras, campainhas, buzinas, rádios, vitrolas, descargas, barbeadores, elevadores, apitos, aspiradores, secadoras, lavadoras

vibradores.

 

O condomínio lê o jornal numa simultaneidade

adivinhada por entre paredes.

 

Comenta-se entrelinhas a crise histérica da vizinha do 301

que culminou com a bicicleta da filha atirada janela afora

uns e outros discutem acaloradamente

sobre atitudes evidentemente anti-econômicas.

 

Penso sobre as catacumbas

se esta cidade deveria ou não ser subterrânea

o que talvez não fizesse nenhuma diferença

o que dá um certo sossego.

 

 

                                                          

 

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