CARPE DIEM (III)
Os ruídos lá fora avisam das coisas acontecendo.
O panorama da normalidade mostra proprietários
aquecendo os veículos da comunicação
criancinhas que as mamães oferecem aos raios ultravioletas
o carteiro adiantado premiando com futuras insônias
aqueles que ousam ter residência fixa
a porca miséria
o jornaleiro que faz da manchete do dia
o samba-enredo vencedor do próximo carnaval
as mansardas de mau-gosto
dos sócio-políticos homens de mau cheiro
o sêmen da madrugada escorrendo pelas tabelas falíveis
o som industrial
liquidificadores, batedeiras, enceradeiras, campainhas, buzinas, rádios, vitrolas, descargas, barbeadores, elevadores, apitos, aspiradores, secadoras, lavadoras
vibradores.
O condomínio lê o jornal numa simultaneidade
adivinhada por entre paredes.
Comenta-se entrelinhas a crise histérica da vizinha do 301
que culminou com a bicicleta da filha atirada janela afora
uns e outros discutem acaloradamente
sobre atitudes evidentemente anti-econômicas.
Penso sobre as catacumbas
se esta cidade deveria ou não ser subterrânea
o que talvez não fizesse nenhuma diferença
o que dá um certo sossego.
© 1980-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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