CARPE DIEM (XVIII)
É preciso chorar
mas está acontecendo a melhor sopa da cidade
a melhor da tua vida talvez.
E as lágrimas se disfarçam com um chiado qualquer
um som que reproduza sucção
se não é a vida uma onomatopéia.
O garçom alcooliza a minha
a tua
a nossa desgraça
(pra que rimar amor e dor?)
e nos embebedamos:
um brinde
ao partido brahma chopp
traga a cachaça, vou berrar na praça
o meu amor que eu tenho converteram em delito
sou apenas uma mulher velha
lamentarei sempre minha juventude
moreno bonito
impeachment no bar do poeta
o diabo não sabe mais
façam jogo, senhores
olha o urubu no telhado
qualquer corpo apanha
perdão – se houvera
o rei morreu
nas intermináveis filas do sexo
levado a cabo por sutis manobras
joão amava maria
o olhar ultramarino sonso
é porta fechada pra tua passagem
mira que ira
que eu quisera ser a mulher amada
eu já te amo como sinfonia
que aí no Leme o mar é teu
sou uma mulher fraturada
queria era morrer sem arrependimento
olhando pra você retilínea
ah
tu me matas
tu me consolas.
© 1980-2002 xenïa antunes. Todos os direitos reservados.
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