CARPE DIEM (I)

 

 

 

Acordo

todas as manhãs

e mesmo nas manhãs mais iguais

e dentro dos gestos mais antigos

há o olhar que reconhece o corpo desabitado

a cama e o naufrágio

e já possuo até a ternura do hábito.

 

Espanto a zonzeira de alguns sonhos poucos

conserto a mulher de alguns sonhos muitos

e é o mesmo pé

ou a variação de um dos dois pés

para fora da cama e do sono que teima

em concorrer no festival.

 

E espero a notícia

a denúncia vazia

a renúncia vazia

a hora certa nacional:

meu coração não confere.

 

Vacilo e me escrevo o resto da poesia de ontem

nos muros

nas folhas papoulas

nas margens possuídas dos rios sombrios

nos guichês

nas roletas

nos terminais da avenida

nos pontos parados

pretos ponteiros

relógios

das eternidades do dia.

 

 

                                               

 

                                                        próxima      voltar para o índice

                                                          © 1980-2002 xenïa antunes. Todos os direitos  reservados.

                                 home | artista | galerias | artemail | literatura | jornalismo | fotografia

                                         arquivosxis | bluenotes | contato | links