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OS MUI AMIGOS PERGUNTAM
 
Nelson Marins, médico, terapeuta e aprendiz de
curandeiro
- Você acha que a Internet é um meio tão eficaz
quanto a imprensa para a divulgação de livros, artigos e crônicas?
- Em relação à mídia escrita acho que é
a saída alternativamente mais eficaz. A Internet só perde para o rádio e para a televisão, por uma
questão, claro, do maior acesso da população a esses meios, mas me
parece não ser de interesse, da televisão, principalmente,
formar pensamento crítico nem elevar o nível cultural das pessoas.
A Internet é, hoje, a melhor opção para
quem quiser se expressar, ser lido, ouvido e visto, não importa sob quais
idiossincrasias pessoais ou coletivas. Ela ainda é um território selvagem,
quase uma terra de ninguém, daí o mau uso e abusos. Mas mesmo assim há
muito mais prós do que contras em usar a Internet para publicar artigos, crônicas, livros, tudo que se
queira e se possa, com liberdade e responsabilidade. A Internet pode
ser definida como "quem procura acha". Se você procurar por
pornografia ou quiser saber como deve fazer para se suicidar com êxito,
encontrará na Internet. Tudo está na Internet, do útil ao
totalmente desnecessário, do condenável,
do pior, passando pelo medíocre, até o melhor, o excelente. Acho que os
bons devem mais é ocupar espaço na Internet.
- Quais os objetivos do seu site?
- Eu quero aproveitar essa tecnologia
fantástica enquanto seu bush não vem. Há pouco espaço, desinteresse,
indiferença, incompetência e muita subjugação na mídia convencional.
Os artistas plásticos, escritores, poetas, músicos e até mesmo os
jornalistas têm buscado expor e divulgar seus trabalhos e idéias
na Internet, com maior independência. É claro que, em afirmando isso,
pretendo que muitas pessoas
conheçam meu trabalho. Acho que isso faz sentido. Faz
sentido, essencialmente, ser a dona do pedaço, a chefe da redação, a
cabeça que pensa, a mão que digita, escreve ou pinta, a única responsável
pelo seu conteúdo, seja do ponto de vista ético, moral ou legal. De resto,
é assumir os riscos virtuais e reais.
- O PT apoiou (Jânio de Freitas) ou não apoiou
(Suplicy) a lei da mordaça e do foro especial?
Querido NM, ainda não li o
artigo do Jânio de Freitas (que você prometeu guardar pra mim). Acredito
que o Suplicy não apoiaria uma infâmia dessas. As últimas dizem que o governo Lula fará tudo
para impedir a votação final do mardito projeto.
 
Ronaldo de Moura, jornalista
- Por que você adota esse modelito de tomar chá de
sumiço e abandonar de tempos em tempos os amigos, inclusive aqueles que
você considera especiais?
- Em primeiríssimo lugar, a
recíproca é verdadeira, viu? Eu preciso produzir.
Alguém tem que trabalhar
neste país! (pode rir). Só porque não tenho
emprego e meus horários de trabalho são estranhíssimos não significa que estou à toa, que os quadros aparecem do
nada, que um espírito baixa em mim e escreve poesias. Mas acho muito bom
que sintam minha falta, isso me honra, me enche de alegria e me dá mais
vontade de fazer um trabalho legal pra mostrar pra vocês, meus amigos
especiais. Tenha paciência comigo...
- Quais são as suas expectativas com relação ao
governo Lula? Por que o Ministério da Cultura virou um patinho feio no
processo da montagem do governo Lula?
- Caríssimo, eu sou uma
reincidente em Lula, meu voto sempre foi escancarado e muito sério.
Portanto, eu não
tenho expectativas, eu exijo que ele faça jus ao meu voto e ao de
milhões de brasileiros governando com decência, honestidade e compaixão. E
é pra ontem.
Quanto ao Ministério da
Cultura, você tem razão, passou meio batido. Mas sempre foi assim, o patinho
feio ainda não
conseguiu se transformar em cisne.
Hoje já sabemos que a Cultura será
dirigida por Gilberto Gil. Ou não.
 
Briquet de Lemos, editor e
livreiro
- Tua vida comprova ou não o provérbio que diz "mais vale um gosto que seis vinténs"?
- Comprova e ainda prova que gosto não
se discute, lamenta-se. O que se pode fazer?
- Je ne regrette rien?
- Não será este meu epitáfio. Eu lamento, sim, muita coisa que fiz e deixei
de fazer na vida. Sou uma mulher de muitos erros e muitos
acertos. Me causa estranheza tantas pessoas afirmarem que não se
arrependem de nada na vida, que se pudessem fariam tudo outra vez,
igualzinho. Eu faria quase tudo diferente, inclusive erraria com
mais competência. Je regrette: "Lamentarei sempre a
minha juventude/os feriados nacionais/os dias santos/os carnavais/a idade
festejada/ sob o olhar vigilante do pai intransigente"
( Exercícios de Amor e
de Ódio, 1980). Só que isso não
significa ficar chorando o leite derramado (nem deixar de ouvir a
Piaf). Nada que mereça dez anos
no divã de um analista picareta. A arte se encarrega de colocar os
ais nos seus devidos lugares. E veja bem: eu não lastimo ser o que
sou, mas sim o que deixei de fazer ou fiz em sendo o que sou. Mas comigo tudo acaba em poesia ou pintura.
E confesso que tive
na vida estréias memoráveis. Tenho um baú de belas recordações e
bandeiras muito bem fincadas em alguns corações e mentes.
- Transitando, com talento e fluência, entre poesia
e pintura, você acha que as duas te negam ou te complementam como criadora
de mundos?
- Não me negam, embora eu nem
sempre esteja nos mundos criados. Mas acho que sei onde estou inteira e
onde buscar os cacos (não dou certeza de nada). A poesia e a pintura se complementam - onde não cabe
uma palavra cabe a imagem e vice-versa. A passagem de uma para outra é só
instrumental, percebe? E você, me considera uma criadora de mundos ou uma
criatura?
 
Larissa Bortoni, jornalista
- Por que tem gente que tem medo de ser feliz? Você
é uma delas?
- Imagino que você esteja me fazendo
essa pergunta por causa das recentes eleições no país e a síndrome de
regininha. Eu penso que as pessoas não têm medo de ser (estar)
felizes, e sim medo de mudar ou fazer escolhas, de trocar o conhecido pelo
desconhecido, o estabelecido pela aventura. Eu não tenho medo, mas não
acho que ser feliz seja uma obrigação, custe o que custar e o tempo todo.
Há outras sensações que fazem menos sucesso mas são bastante
gratificantes.
- Você gosta muito de pintar nus femininos. Isso
revela uma opção sexual oculta?
- Who knows? Já me perguntaram (e às
pessoas que expõem ou vendem meu trabalho) se eu sou lésbica. Eu não sou, mas não porque eu tenha optado em não
ser ou reprimido alguma tendência, mas porque a natureza é livre para
se manifestar como quiser e ela é quem manda. Eu só obedeço, com muito
prazer. Não tenho, pois, nenhuma opção sexual oculta. Se a minha natureza mudar
de idéia, anunciarei.
Homens ao vivo e à parte, gosto, sim, e
muito, de desenhar e pintar mulheres. Isso talvez revele que eu gosto mesmo é de
mim mulher. Dr. Freud não explica. Talvez, ao recorrer à figura
feminina como tema central do meu trabalho, eu
esteja expondo ou imprimindo várias máscaras femininas à mim mesma. Who
knows?
- Temos cachorrinhos novos de novo. Quando você vai
permitir que o nosso Toni Tornado dissemine seus negros gens por essas
bandas aí?
- Dara Odara Dandara, com suas
lindas orelhas cacheadas carameladas e porte de donzela não
demonstra nenhum interesse no momento em relações que gerem filhotes, já
que ela assumiu a função full time de me adorar com seus olhos de ameixa
derretida. Mas diga ao Toni que ele é o pretendente número um e que se ela
tiver que ser mãe ele será o pai herói.
 
Zé, especialista em generalidades
- Você já notou que não dá pra resolver todos os
problemas do mundo, por mais que você pense que é capaz? Se notou, porque
não tenta relaxar quanto a isso, de vez em quando?
- É mesmo? Pôxa, logo agora que eu
estava quase conseguindo você vem com
esse balde de água fria! Quer trocar de lugar? Você vem para o submarino e
eu vou para o Splendor of the Seas. Prometo relaxar...
- Se fosse para você
passar uma tarde toda conversando com qualquer pessoa, quer viva ou morta
(ou, quem sabe, ainda por nascer) quem seria essa pessoa?
- Ainda bem que você reconhece
o quanto meu tempo é precioso. Corro o risco de perder uma tarde
inteira com alguém berrando nos meus ouvidos idéias fascinantes ou com
outro alguém aveludadamente me relatando como investiu e ganhou muiiiito
dinheiro na bolsa de valores, ou ainda com alguém que tenha voz maviosa,
idéias instigantes mas se comunique como uma girafa. Não vale amigo(a), já passei
centenas e centenas de horas conversando com todos(as) e pretendo usar
todas as milhas a que tenho direito conversando muito mais.
Lá vai: eu gostaria de passar
uma tarde inteira conversando com o Dalai Lama.
- Qual é a sua posição sexual preferida?
- Você sabe que eu
protestei quando você me enviou essa pergunta. E você argumentou que isso era
o mínimo que eu deveria saber sobre mim mesma. Acabo de descobrir que não sei
nada a meu respeito. Estou em plena crise de identidade, não sei quem sou
eu, para onde vou, o que quero, o que estou fazendo aqui, qual o sentido
da vida...
  
Carlos Barbosa, historiador e designer
- Amar o que se faz. Fazer o que se ama. Fazer o que
deve ser feito. Qual dessas frases melhor traduz xenïa antunes?
- O ideal (e o mais fácil) é fazer o
que se ama e a conseqüência natural seria amar o que se faz. Mas
é preciso também, e concomitantemente, fazer o que deve ser feito, e
o que deve ser feito geralmente ou é uma obrigação (moral, legal) ou
alguma concessão em prol da convivência pacífica com outros humanos
e da ordem das coisas. Claro que eu me traduzo melhor em fazendo o
que eu amo e amando muito o que eu faço.
- 1 + 1 = 2?
- Eu prefiro que seja, porque daí
teremos 1 pão + 1
pão = 2 pães, que divididos por duas pessoas seria igual a um pão
para cada uma. Costumam ensinar isso na escola fundamental, mas não
sei se os senhores governantes aprenderam a lição.
- Em sua obra, ficção e realidade fundem-se,
contrapõem-se ou manifestam-se aleatoriamente?
- Carlos, eu nunca fiz essa análise,
até porque quem entende mais do que eu faço é você. Eu só faço escrever ou
pintar e acho que tudo é realidade, o que pode ser uma tremenda ilusão.
Sei lá...é bonito,
não?
- Se pudesse
retratar, numa tela ou num poema, a verdadeira mulher, que nome lhe daria:
Amélia ou Messalina?
- A Amélia da canção, a tal mulher sem
vaidade, que passa fome e acha bonito não ter o que comer, é um
estereótipo um tanto deprimente. Só falta achar bonito também levar porrada. Messalina
era uma louca desvairada que se casou com um imperador pateta, numa época em que
as misturas genéticas entre a realeza - e alguma plebe - produziram
tipos estranhos, perversos e insanos como Nero e Calígula. Ela era farinha
do mesmo saco, e a lenda preserva através dos séculos sua fama de
mulher má e trepadeira, que mereceu ser assassinada aos 30 anos
de idade. A psiquiatria denomina de Messalina mulher que
dá muito, e até hoje, em algumas sociedades, as messalinas são
mutiladas ou mortas.
Eu acho que já retrato
tanto mulheres-messalinas atormentadas como mulheres-amélias revoltadas e
desatinadas. Além das mulheres de Atenas e das madalenas arrependidas.
Mas eu não sei o que seja uma
mulher verdadeira, e você?
 
Lúcia Gonçalves de
Oliveira, artista plástica
- Quem é você?
- Eu sou eu, um ser humano que ri. Você
entendeu, não? Os ataques de riso... Se eu parar de rir, eu não sou
nada, mistério nenhum. Na verdade, eu sou alguém somente porque existem
espelhos, outras pessoas. Se eu fosse a única habitante do planeta,
não existiria EU. Logo, eu sou todos.
Que coisa mais maluca...deixa pra lá.
Eu sou (ou penso que sou) uma pessoa
muito legal, gente boa mesmo, de personalidade forte, criativa, meio
ciclotímica, distraída pra caramba, sem muito senso de orientação
espacial, crédula do ser humano, sem religião mas de muita compaixão,
socialista, sem preconceitos, pouco influenciável, ótima motorista,
péssima cozinheira, excelente perdedora e que tem muito sono de manhã.
- O que é mais importante para você,
como ser humano e como artista? E o que é ser artista?
Liberdade. Preciso de liberdade tanto
para sobreviver como para me expressar e isto é um choque frontal com o
status quo. Mas toda e qualquer liberdade tem limites - veja bem,
limites, e não censura - e tem um preço. E é alto. Eu pago o preço, com
juros por limites ultrapassados
Ser artista é ser amigo íntimo dos
deuses e só se sentir em casa quando há uma harpa por perto e lhe oferecem
ambrosia. Aqui na Terra ser artista é trabalhar feito um jumento, criar
como um louco e morrer para que os outros possam dizer: "era um artista".
- De que é que você
tem medo?
- De viajar de avião
(mas o Nelson Marins vai me ajudar a resolver isso). Medo de sentir medo é
o pior de todos.
- Seus planos para o
futuro?
- Ficar por aqui, no
planetinha, enquanto for saudável e toda dor suportável.
- Sua melhor lembrança?
- A melhor lembrança é a
nossa falta de memória - ainda não conseguimos fazer a lista
honestamente. (E a fogueira, Manalu?)
 
Diogo Benjamim, economista
- Quando e por que você começou a carreira
artística?
- Era para eu ser
advogada, mas abandonei a faculdade, e o mundo deve me agradecer esse
favor. Acho que tudo começou quando aprendi a ler e a escrever, aos
4 anos de idade. Gostava das letrinhas, eu acho, mesmo que não entendesse nada. E
também desenhava, cantava, dançava, representava. Acabei fazendo de tudo
um pouco, mas escrever e desenhar era o que mais gostava, até porque não
dependia de ninguém e eu gosto de ficar só. Não penso que fiz carreira,
apenas continuei escrevendo, pintando, inventado coisas. E o tempo foi
passando, muita coisa se perdeu nas andanças e mudanças, outras eu joguei
fora, algumas eu desprezo, e vamos ver onde é que essa estrada vai dar.
- Quais são seus autores e artistas favoritos?
- Na literatura, Albert Camus,
incondicionalmente. Nas artes plásticas, aprecio e admiro a obra
de vários artistas de diferentes épocas, mas quem me comove profundamente
é Miró.
- Dada a sua
experiência literária e jornalística, você já pensou em escrever um
romance, um livro de aventuras?
- Não. Há dois caras que não me
deixam cometer essa vaidade: James Joyce e Camus. Eu ainda
sou uma aprendiz e melhor faço em continuar aprendendo, lendo e relendo os grandes escritores.
Brasília, 2 de janeiro de
2003.
Fotos: ©
xenïa antunes
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